Construção e desconstrução de narrativas para moldar percepções — As 3 etapas: Promessa, Território e Barganha
Resumo executivo:
Narrativas eficazes movem pessoas não só pelo que dizem, mas por como estruturam sentido, emoção e ação. Uma engenharia narrativa sólida passa por três etapas integradas: Promessa (a visão que convida), Território (o enquadramento e a posse temática que legitimam) e Barganha (as trocas que viabilizam adesão e estabilidade). Abaixo, um guia prático — fundamentado em pesquisas internacionais — para criar, avaliar e desmontar narrativas no campo político, de marcas ou causas.
1) Promessa: o convite emocional-estratégico
O que é:
É a visão desejável do futuro que amarra problema, solução e recompensa percebida. Ela funciona quando transporta o público “para dentro” da história e reduz contra-argumentação no curto prazo, um fenômeno estudado como narrative transportation (absorção na narrativa), associado a maior persuasão e crença consistente com o enredo.
Componentes práticos da Promessa:
- Protagonista: quem ganha (pessoa, grupo, cidade).
- Antagonista: o obstáculo (problema, sistema, hábito).
- Transformação: como a vida melhora (métrica mensurável).
- Prova de caminho: por que “agora é possível” (recursos, tecnologia, coalizões).
- Convite claro: a ação mínima viável (assinatura, voto, doação, adesão).
Como testar a Promessa:
- Transporte narrativo: a história é vívida o bastante para prender atenção e evocar imagens mentais? (escala/itens inspirados em Green & Brock).
- Coerência causal: problema → causa → solução → ganho.
- Frase-âncora: enuncie a Promessa em até 15 palavras.
Para desconstruir Promessas de terceiros:
- Rastreie lacunas entre promessa e evidência;
- Peça mecanismos (“como exatamente?”) para desfazer o encanto do enredo;
- Aplique inoculação: apresente versões fracas dos argumentos da promessa e refute-as preventivamente, aumentando resistência do público.
2) Território: onde a narrativa “mora” e ganha autoridade
O que é:
É a arquitetura de enquadramento (framing), posse temática (issue ownership) e janela de aceitabilidade (Overton) que legitima a promessa. Frames selecionam aspectos da realidade e os tornam mais salientes para definir problemas, causas, julgamentos e soluções (definição clássica de Entman).
Três alicerces do Território:
- Framing (Enquadramento): qual interpretação você ativa? (ex.: “segurança pública” como ordem vs. como direitos).
- Issue Ownership (Posse do tema): quem o público percebe como mais competente naquele assunto tende a ter vantagem quando o tema domina a agenda. Planeje para falar onde você é crível — e para “empurrar” o debate para os temas que você “possui”.
- Janela de Overton: posicione propostas dentro do aceitável (ou mova a janela gradualmente), sequenciando ideias do “impensável” ao “política pública”.
Ferramentas para construir Território:
- Mapa de Frames: liste de 3 a 5 frames possíveis; escolha 1 frame-mestre e 2 de apoio.
- Matriz de Posse Temática: cruze força de credibilidade x saliência pública; priorize mensagens nos quadrantes fortes.
- Roteiro de deslocamento de Overton: comece por valores compartilhados, avance para princípios, depois políticas (da norma cultural ao instrumento técnico).
Para desconstruir Territórios alheios:
- Reenquadre sem repetir o frame adversário (evite amplificar palavras dele).
- Desposse: exponha inconsistências entre reputação e desempenho em dados.
- Janela reversa: destaque custos e riscos que trazem a proposta de volta ao não aceitável (com evidências).
3) Barganha: das adesões às entregas (onde a narrativa “vira sistema”)
O que é:
É a fase de negociação e troca que transforma adesão simbólica em compromissos (políticos, institucionais, de mercado). Aqui valem os princípios de negociação por interesses (Fisher & Ury): separar pessoas do problema, focar em interesses, criar opções de ganho mútuo e usar critérios objetivos — com atenção ao BATNA (melhor alternativa ao acordo).
Como barganhar narrativas:
- Ofertas escalonadas: defina níveis de compromisso (simples → robusto) para diferentes perfis de apoiadores.
- Coalizões narrativas: alinhe frames entre parceiros (ONGs, setores, lideranças) para evitar dissonâncias públicas.
- Contrapartidas simbólicas e materiais: reconheça status, forneça acesso, compartilhe benefícios mensuráveis.
Para desconstruir na Barganha:
- Exponha o custo oculto das trocas (quem paga, quando, como).
- Questione critérios: a que métricas o acordo se submete?
- Pressione o BATNA do oponente: mostre que há alternativas melhores ao acordo proposto.
Engenharia completa: do laboratório à rua (checklist aplicado)
- Diagnóstico de narrativa vigente
- Quem promete o quê, para quem, contra o quê?
- Quais frames dominam? (planilha de citações → codifique “problema/causa/solução/julgamento” segundo Entman).
- Design da Promessa
- Headline de 15 palavras + prova de caminho (dados, cases, pilotos).
- Roteiro de 60s que maximize transporte (detalhe sensorial, personagens, conflito).
- Arquitetura do Território
- Guia de estilo de frames (palavras permitidas/proibidas).
- Plano de agenda: conteúdos que “puxam” temas que você possui.
- Estratégia Overton: sequência de peças (valores → princípios → políticas).
- Plano de Barganha
- Mapa de stakeholders com interesses, objeções e BATNA estimado.
- Menu de contrapartidas e critérios objetivos para acordos.
- Proteção & Resiliência
- Inoculação prévia contra ataques previsíveis (refutações curtas e memoráveis).
- Monitoramento de frames e sinais de transporte (tempo de retenção, repetição espontânea, recall de mensagens).
Estratégias de desconstrução (defesa e contra-ataque)
- Análise de frame: identifique o núcleo (problema/causa/julgamento/solução) e substitua por um frame que gere conclusões diferentes (ex.: de “culpa individual” → “falha sistêmica”).
- Teste de plausibilidade narrativa: verifique mecanismo, proporção e generalização (onde a história extrapola indevidamente?).
- Quebra de posse temática: traga evidência comparativa que realoque competência percebida.
- Movimento de janela: associe a proposta a custos/riscos fora do aceitável para o público-alvo.
- Inoculação ativa: ensaie ataques prováveis e publique respostas curtas de alta memorização (2–3 passos: reconhecer → explicar → oferecer alternativa).
Dimensão internacional (o que pesquisas globais mostram)
- Narrativas estratégicas são tratadas como instrumentos de poder e ordem em relações internacionais (governos e atores transnacionais competem para definir “o que está acontecendo” e “o que deve ser feito”).
- Framing tem função universal na comunicação pública: a disputa é por definições e remédios socialmente aceitáveis.
- Transporte narrativo e inoculação aparecem em campanhas de saúde, política e ciência, inclusive em contextos de desinformação.
- Issue ownership se repete em democracias diversas: partidos/candidatos performam melhor quando campanha gira em torno dos temas que o público já lhes atribui competência.
Indicadores de sucesso
- Aderência à Promessa: % de público que repete a headline/benefício sem ajuda.
- Domínio de Território: share-of-voice em frames desejados + menções a temas “possuídos”.
- Efetividade da Barganha: nº de apoios qualificados, acordos com critérios objetivos e redução de risco via BATNA favorável.
- Resiliência: queda menor de apoio após ataques (teste A/B de inoculação).
Ética e segurança cognitiva
Engenharia narrativa não é licença para manipulação antiética. Boas práticas:
- Transparência de dados e fontes;
- Evitar frames desumanizadores;
- Mecanismos verificáveis (métricas públicas);
- Direito de resposta e correções rápidas;
- Inoculação contra desinformação, inclusive quando lhe favoreceria no curto prazo.
Template rápido (pronto para usar)
- PROMESSA (15 palavras): “___________ vai transformar ___________ em ___________, começando por ___________ até ___________.”
- FRAME-MESTRE: “Este é um problema de _________ causado por _________; a solução justa/eficiente é _________.”
- TERRITÓRIO (temas que possuo): Tema A / Tema B / Tema C + plano de agenda.
- OVERTON (sequência): valores → princípios → políticas → pilotos → expansão.
- BARGANHA (ofertas): Contrapartida 1 / 2 / 3 + critérios objetivos + BATNA.
- INOCULAÇÃO (3 ataques previsíveis + 3 refutações de 15–20 palavras).
Referências essenciais (selecionadas)
- Entman, Framing — como textos moldam problema, causa, julgamento e solução. fbaum.unc.eduOxford Academic
- Green & Brock, Narrative Transportation — por que histórias persuadem. Communication CacheOxford Academic
- Miskimmon, O’Loughlin & Roselle, Strategic Narratives — poder e ordem via narrativa. Taylor & FrancisJSTOR
- Petrocik e seg., Issue Ownership — vantagem quando o debate é “seu” tema. JSTORWiley Online Library
- Overton, Janela de aceitabilidade — como deslocar o que é “plausível”. Encyclopedia Britannica
- Fisher & Ury, Getting to Yes / BATNA — negociação por interesses. pwsausa.orgrhetoricinstitute.edu.gr
- McGuire, Inoculation Theory — construir resistência a contra-argumentos. Wikipedia



